Vamos falar sobre HIV?


 Os termos AIDS e HIV ainda carregam em si um estigma, fruto da falta de conhecimento sobre o assunto e do preconceito de uma sociedade extremamente machista. O vírus, que no Brasil foi identificado no início dos anos 80 viu suas taxas de infecção subirem exponencialmente nas décadas seguintes. Com a falta de tratamentos adequados e políticas públicas para o seu tratamento, a AIDS, sigla usada para definir a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, ceifou muitas vidas e continua hoje, em menor número, é certo, a ser a causa de muitas mortes. Já o HIV é a sigla em inglês do vírus da imunodeficiência humana. Causador da AIDS, ataca o sistema imunológico, responsável por defender o organismo de doenças. As células mais atingidas são os linfócitos T CD4+. E é alterando o DNA dessa célula que o HIV faz cópias de si mesmo. Depois de se multiplicar, rompe os linfócitos em busca de outros para continuar a infecção.

 Ter o HIV não é a mesma coisa que ter AIDS. Há muitos soropositivos que vivem anos sem apresentar sintomas e sem desenvolver a doença. Mas podem transmitir o vírus a outras pessoas pelas relações sexuais desprotegidas, pelo compartilhamento de seringas contaminadas ou de mãe para filho durante a gravidez e a amamentação, quando não tomam as devidas medidas de prevenção.

 Sobre Dom Pedrito, especificamente, nós conversamos com a responsável pelo SAE - Serviço de Atenção Especializada da Secretaria de Saúde do município, a enfermeira Clara Germano Netto. Ela nos revelou que só em 2017, 25 novos casos de HIV surgiram na cidade. Clara nos explicou, também, que hoje em dia, não se usa mais o termo "portador de HIV" e sim "pessoa vivendo com HIV" , como uma forma menos discriminatória de se referir às pessoas infectadas. Perguntamos à enfermeira se poderíamos traçar um perfil das pessoas que vivem com HIV na cidade, no que ela disse que não existe um padrão específico mas, genericamente os novos casos são de pessoas jovens e de uma classe econômica menos favorecida, o que não é uma regra visto que a população de Dom Pedrito, em sua maioria tem uma renda muito baixa. Uma situação por ela observada neste ano é que apenas 7 casos novos de HIV chegaram ao conhecimento do seu setor, ou seja, já estamos na metade do ano e algo aconteceu que impediu de todos os casos chegarem ao seu conhecimento, visto que não é possível que a incidência tenha caído drasticamente na cidade, o que é preocupante.

 O principal modo de contágio que, antigamente estava relacionado aos usuários de drogas injetáveis, hoje tem como principal via as relações sexuais sem proteção, independente do tipo de relação, homosexual ou heterosexual. Sobre este assunto, Clara foi taxativa - as relações sexuais, mesmo com um único parceiro (a), não é uma garantia de proteção, pois não há como quantificar quem está no grupo de risco. Falando sobre as dificuldades em se difundir a informação sobre o HIV e a importância da prevenção, a enfermeira Clara avalia que o fator cultural com uma conduta extremamente machista, predominantemente encontrada aqui em Dom Pedrito é o principal fator para que vivamos um descontrole nesta epidemia. As pessoas têm vergonha e medo da opinião alheia, porque a doença, como dissemos, ainda carrega um estigma do passado, quando a sua confirmação era praticamente uma sentença de morte, além de ser erroneamente relacionada à população chave, antigamente chamada de grupo de risco (homens que fazem sexo com homens, gays, transexuais, travestis, profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis, etc). A enfermeira salientou a importância de os pais ou responsáveis conversarem com seus filhos sobre HIV, sobre sexualidade, ações preventivas que poderão fazer toda a diferença nas vidas futuras.

 No setor em que Clara trabalha, junto os técnicos de enfermagem  Bianka Mennas Colina e Ezio Briner Nunes, são disponibilizados testes rápidos para HIV, bem como em todos as ESFs da rede municipal. Qualquer pessoa pode solicitar o teste, que é gratuito. Aqueles que são diagnosticados como "reagentes" no teste rápido, fazem na hora outro teste. Caso este se confirme, uma amostra de sangue é enviada para um laboratório em Rio Grande. Após a primeira consulta com o médico responsável por essa área, o paciente já pode começar a fazer o seu tratamento com os medicamentos, que também são fornecidos gratuitamente. Hoje, as medicações evoluíram muito e quase não trazem efeitos colaterais, o que faz com que a pessoa que vive com HIV possa levar uma vida praticamente normal, com a expectativa de vida também sendo quase a mesma de uma pessoa sem o vírus.

 Hoje pode-se dizer que o grande problema são as pessoas que não sabem que são portadoras do vírus e aquelas que são, mas não fazem o tratamento. Tanto é verdade que, aquele paciente que faz uso dos medicamentos antiretrovirais tem a uma circulação tão baixa do vírus no seu organismo que não são capazes de transmitir o vírus a outra pessoa, ao menos por via sexual, daí a importância da informação, da prevenção, do diagnóstico e do tratamento. Um outro dado interessante e preocupante sobre o HIV em Dom Pedrito é que, levando-se em consideração uma média de que a cada quatro pacientes, um ser infectado, e tendo por base os 107 pacientes atualmente em tratamento, chega-se a um número de cerca de 300 pessoas com o vírus HIV na cidade que não fazem qualquer tratamento, constituindo-se, portanto, transmissores em potencial do vírus. A enfermeira finalizou nossa conversa salientando o quão importante é fazer o diagnóstico o mais rápido possível para que o paciente possa ter o tempo necessário para assimilar a ideia, aderir ao tratamento e ter saúde antes que ela tenha doenças oportunistas (tuberculose, pneumonia, etc) ou mesmo evolua para um quadro de AIDS.

Alguns números sobre pacientes de Dom Pedrito

- Em tratamento: 108
- Transferidos para outras localidades: 8
- Em abandono: 19 (podem estar se tratando em outro município mas não comunicaram)
- Exames de HIV arquivados e que nunca foram retirados: 5
-  Óbitos (não necessariamente por HIV/AIDS) 2010 a 2013: 01 por ano; 2014 - 06; 2016 - 05; 2017 - 04; 2018 - 01.

 O próximo evento relacionado ao Serviço de Atenção Especializada será no dia 28 de  julho, um sábado, no Posto Central, com atendimento das 8h às 16h. Dia 28 de Julho é o Dia Mundial da Saúde. Compareça.

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